Envelhecer:
"O aprendizado nunca termina"
(matéria publicada na Folha Espírita em novembro de 2004)
A Folha Espírita entrevistou o Dr. Fábio Nasri (AME-SP), coordenador do programa de Geriatria e Gerontologia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo (SP), um dos melhores do País. Fábio Nasri, 41 anos, formou-se em Medicina pela Unifesp – EPM, em 1986, e seguiu a Geriatria como especialidade. Nesta entrevista, ele trata do porquê de estarmos vivendo mais, do conceito de qualidade de vida, das doenças que atingem os mais velhos e da importância da espiritualidade nos tratamentos, e aponta coisas que devemos parar e pensar por conta da fase pela qual passa o nosso planeta.
Folha Espírita – Que faixa
etária atende a Geriatria? Por quê?
Fábio Nasri – Em geral, o geriatra atende pacientes acima de 65 anos, porém,
freqüentemente, somos procurados por pessoas mais jovens. Consultar um geriatra
pode ser importante após os 50 anos, mas praticamente não existe diferença entre
a consulta desse profissional e um bom clínico. O geriatra faz mesmo diferença
no atendimento aos pacientes mais idosos.
FE – Hoje as pessoas estão
vivendo mais?
Nasri – Sim, a expectativa de vida cresce no mundo todo, em especial nos países
em desenvolvimento, como o nosso. A razão disso são as melhores condições de
saúde da população. Embora o Brasil apresente problemas de saúde, o acesso à
água potável, vacinas e antibióticos, por exemplo, é maior.
FE – Se estamos vivendo mais,
o que devemos fazer para ter mais qualidade de vida?
Nasri – Na maioria das pessoas a saúde é um bem herdado até os 40 anos. Depois
dessa idade temos de trabalhar para termos saúde, como trabalhamos, por exemplo,
para nos sustentar. Esse “trabalho” inclui necessariamente uma alimentação mais
saudável, com frutas, legumes, saladas e peixes. Não devemos nos esquecer de
praticar atividades físicas e manter vivos os nossos relacionamentos de amizade,
investir no relacionamento com nossos filhos e parceiros. Exames de rotina
também são importantes e devem ser realizados.
FE – Aliás, o que podemos
entender por qualidade de vida?
Nasri – Definir qualidade de vida é difícil. Uma regra bastante simples é
imaginar o que você tem na vida, em termos materiais, espirituais,
relacionamentos, habilidades, etc. Depois imagine, para cada um desses itens, o
que você gostaria de ter. Quanto maior a diferença entre o que você tem e o que
você gostaria de ter, pior a sua qualidade de vida. Ou seja, já que é difícil
ter tudo que se quer, o negócio é trabalhar as expectativas. Todo e qualquer
questionário que avalia qualidade de vida, e existem vários, procura medir o
grau de adaptação à sua realidade específica. Quando mais adaptado você está,
melhor.
FE – Quais os males mais
freqüentes na faixa etária que a Geriatria atende? Mais homens, mais mulheres?
Nasri – O médico geriatra atende principalmente as mulheres, pois a expectativa
de vida ainda é maior para elas. As patologias mais freqüentes são as alterações
de humor, como depressão, os problemas de memória, hipertensão arterial,
diabetes, osteoartrose e osteoporose.
FE – Por quê?
Nasri – São as patologias mais freqüentes no idoso.
FE – A espiritualidade da
pessoa pode ajudá-la a evitar esses males?
Nasri – Sim, existe uma série de estudos demonstrando que as pessoas que cultuam
a sua espiritualidade e religiosidade apresentam melhor evolução em uma série de
patologias, como, por exemplo, pós-operatórios mais breves e menos dolorosos,
melhora na imunidade, entre outros.
FE – Como introduzir a
espiritualidade nos tratamentos?
Nasri – O primeiro passo a ser quebrado é o do próprio médico. Acredito que os
médicos deveriam perguntar aos seus pacientes sobre religião, se respeitam
alguma doutrina ou se acreditam em Deus. Na verdade muitos pacientes gostariam
de ouvir essa pergunta. Tenho certeza também de que muitos médicos gostariam de
fazê-la. Mas, infelizmente, cada um fica no seu papel, e essa pergunta não
ocorre. Quando perguntamos ao paciente se ele possui alguma fé, a consulta muda.
Mesmo que ele diga que não acredita em nada, parece que algo acontece e tudo
fica mais fácil. Quando o paciente responde que tem alguma religião ou obedece a
algum ritual interno de fé, sempre procuro estimulá-lo a prosseguir e até
intensificar o seu contato com essa determinada religião durante o processo do
tratamento.
FE – Por que muitas pessoas
mais velhas entram em depressão?
Nasri – O fenômeno do envelhecimento é algo novo para a nossa espécie. Na
evolução do homem na Terra, nunca vivemos tanto. Basta lembrar que na época de
Jesus a expectativa de vida era de 30 anos! E isso ocorreu somente há dois mil
anos. A primeira idade se caracteriza pelo rápido crescimento no número de
células e sua diferenciação. Ganhamos massa muscular, nosso cérebro se
desenvolve e rapidamente aprendemos a andar e falar. A primeira idade termina
quando nós nos reproduzimos e então se realizam os rituais de passagem.
Batismos, Bar-Mitzvá, apresentação para a sociedade, nas tradicionais festas de
15 anos. A segunda idade caracteriza-se pelas realizações profissionais,
casamento e formação da família. Ocorrem os ganhos materiais, salários, carros e
por aí vai. Esta é uma fase de grandes realizações pessoais e exercício da
independência. Pois bem, quando termina a segunda idade, entramos na tão falada
terceira idade, e esse processo é novo, sob o ponto de vista cultural, na nossa
espécie. Não temos conceito formado a respeito, portanto temos tendência a
comparar a terceira idade com a segunda, e aí a terceira idade parece um mar de
perdas. Perdemos a nossa renda, as pessoas queridas vão cuidar das suas vidas ou
desencarnam, não trabalhamos mais, e esse conceito de perda muitas vezes é o
responsável pelos episódios de depressão. Como não temos um conceito formado, a
outra opção é formar o “conceito de negação”, ou seja: não quero envelhecer, vou
ficar jovem para sempre, fazer plástica, surfar, ir a bailes de pessoas jovens e
coisas do tipo. Pois é, como vemos, ainda não temos um conceito da terceira
idade. É uma experiência nova para a nossa espécie e para cada um de nós. Mas...
por que a terceira idade não pode ser então a idade do espírito? Por que não
poderia ser a idade na qual, segundo o escritor Jorge Luiz Borges, “o animal já
se foi, ou quase se foi, restam apenas o homem e sua alma”?
FE – O que fazer para
combater a depressão?
Nasri – Acho que ensaiar uma mudança de postura frente à vida seria
interessante. Caso não dê para fazer isso sozinho, sugiro procurar uma boa
psicóloga e auxílio espiritual. Entretanto, muitas vezes temos de recorrer
também aos antidepressivos.
FE – O que existe no Brasil e
o que poderia ser feito ainda para entreter as pessoas mais idosas?
Nasri – Infelizmente, não temos tantas opções como os países mais desenvolvidos.
Porém, elas vêm crescendo. Cada vez mais observamos grupos de terceira idade,
universidade da terceira idade, programas culturais específicos, por exemplo.
Porém, não acredito no termo entreter, pois acho que o idoso ainda tem uma
grande capacidade de aprender e empreender. Muitos dos meus pacientes realizam
grandes obras assistenciais na terceira idade. Devemos lembrar que na Terra o
aprendizado nunca termina.
FE – Que recomendações gerais você daria ao leitor da Folha
Espírita?
Nasri – Caros leitores e amigos, todos nós sabemos que os tempos estão difíceis
e que nosso planeta se prepara para mudar de “status”. Nesta fase, naturalmente,
tensões ocorrem e todos nós, muitas vezes, desanimamos. Mas temos de nos manter
tranqüilos e serenos, entendendo que fazemos parte de um plano maior. Se estamos
vivendo mais, mesmo tendo de tomar remédios para isso, é por que precisamos.
Quantos avós hoje não ajudam a sustentar um neto? Quantos avós hoje não tomam
conta dos netos enquanto seus pais trabalham? Quantos filhos, já em idade bem
madura, não encontram na palavra amiga de seus pais, mais idosos, o consolo
quando sofrem um revés na vida? Quantos adolescentes não escutam seus avós e
muitas vezes estes impedem o desvio para o caminho das drogas? Pensem nisso!
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