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Poderia chamar-se "como nossos avós", ou "como nossos antepassados mais distantes ainda". Isso porque o objetivo dele é justamente refletir sobre o que nos faz ser tão parecidos com os que nos antecederam na viagem da vida carnal.
Não pretendo aqui fazer uma reflexão doutrinária sobre o aspecto da reeencarnação, mas sobre outro ângulo, talvez mais afeito à Psicologia,
porém igualmente de profundo interesse para quem enxerga a vida sob a lente espírita, buscando argumentos comparativos para entender o fenômeno das relações entre as pessoas de uma mesma família.
Tenho em mãos o livro Repetições (in)desejadas – uma questão de família1, da assistente social Ivone Placoná Bertin, mestre em Psicologia
e especialista em terapia de casal e família pela PUC de São Paulo.
A autora relata os resultados do atendimento de uma família composta
por cinco pessoas – mãe e quatro filhos –, feito durante a realização do curso de especialização sobre dinâmica e processos de mudanças na família, da referida Universidade.
O atendimento foi feito gratuitamente durante treze meses, entre 1991 e 1992.
A proposta de reflexão apresentada pela autora é a seguinte: nos sistemas familiares existem certos padrões de funcionamento que, embora sejam identificados e não desejados por seus membros, continuam sendo repetidos. Por que muitas pessoas não conseguem deixar de reproduzir hábitos apreendidos lá na infância, mesmo sabendo
que tudo que queriam era desvencilhar- se deles de uma vez por todas?
Quem já não pensou alguma vez: "isso que meu pai fazia comigo jamais vou fazer com meu filho", ou "nunca vou repetir esse hábito horrível de minha mãe com minha família", e, num dado momento, flagrou-se cometendo o mesmo ato que sempre criticou nos pais?
A dificuldade de sair das cadeias invisíveis que prendem os membros da prole aos mesmos destinos remete a um possível script familiar, que atua inconscientemente como que cumprindo a tarefa de equilibrar o sistema doméstico. É como se, para o funcionamento adequado do lar, fosse exigida de seus membros a constante observância do enredo da história familiar.
Não me refiro aqui a impulsos individuais parecidos que este e aquele parente possuem em comum, denotando supostas afinidades decorrentes de vínculos anteriores.
Atenho-me a um acúmulo de gerações em vida, formando uma rede de influências de avós para bisnetos, trazendo atos e posturas que vieram ao longo das gerações influenciando silenciosamente tomadas de decisão e condutas, sem que os mais novos, muitas vezes, entendessem por que agem desta ou daquela forma.
...
A família que Ivone acompanhou era composta por Nadir (30 anos) e os filhos Rogério (15), Maira (11), Solange (9) e Marta (7).
Todos os nomes são fictícios. Tudo começou porque Rogério não vinha
bem nos estudos e acabou encaminhado ao atendimento psicológico
da Universidade.
Foi nesse ambiente que a terapeuta ficou sabendo que Nadir havia ficado grávida do garoto aos 15 anos de idade. A mãe dela, Edna, avó das crianças, também engravidara de Nadir com a mesma idade.
Para completar o perfil familiar, a avó Edna nascera quando sua mãe, a bisavó Maria, estava justamente com 15 anos de vida.
Coincidência ou não, o fato é que as repetições de vivências semelhantes e não verbalizadas entre três gerações de uma mesma família revelaram as marcas psicológicas profundas que cada ser humano provoca em outro com sua conduta e suas opções. > Como nossos pais...

Carlos Abranches

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