Diretrizes Doutrinárias
O Evangelho segundo o Espiritismo
Cap. XVI - Honrai a Vosso Pai e a Vossa Mãe
A parentela corporal e a parentela espiritual
8. Os laços do sangue não
criam forçosamente os liames entre os Espíritos. O corpo procede do corpo, mas o
Espírito não procede do Espírito, porquanto o Espírito já existia antes da
formação do corpo. Não é o pai quem cria o Espírito de seu filho; ele mais não
faz do que lhe fornecer o invólucro corpóreo, cumprindo-lhe, no entanto,
auxiliar o desenvolvimento intelectual e moral do filho, para fazê-lo progredir.
Os que encarnam numa família, sobretudo como parentes próximos, são, as mais das
vezes, Espíritos simpáticos, ligados por anteriores relações, que se expressam
por uma afeição recíproca na vida terrena. Mas, também pode acontecer sejam
completamente estranhos uns aos outros esses Espíritos, afastados entre si por
antipatias igualmente anteriores, que se traduzem na Terra por um mútuo
antagonismo, que aí lhes serve de provação. Não são os da consangüinidade os
verdadeiros laços de família e sim os da simpatia e da comunhão de idéias, os
quais prendem os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações. Segue-se
que dois seres nascidos de pais diferentes podem ser mais irmãos pelo Espírito,
do que se o fossem pelo sangue. Podem então atrair-se, buscar-se, sentir prazer
quando juntos, ao passo que dois irmãos consangüíneos podem repelir-se, conforme
se observa todos os dias: problema moral que só o Espiritismo podia resolver
pela pluralidade das existências. (Cap. IV, nº 13.)
Há, pois, duas espécies de famílias: as famílias pelos laços espirituais e as famílias pelos laços corporais. Duráveis, as primeiras se fortalecem pela purificação e se perpetuam no mundo dos Espíritos, através das várias migrações da alma; as segundas, frágeis como a matéria, se extinguem com o tempo e muitas vezes se dissolvem moralmente, já na existência atual. Foi o que Jesus quis tornar compreensível, dizendo de seus discípulos: Aqui estão minha mãe e meus irmãos, isto é, minha família pelos laços do Espírito, pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus é meu irmão, minha irmã e minha mãe.
A hostilidade que lhe moviam seus irmãos se acha claramente expressa em a narração de São Marcos, que diz terem eles o propósito de se apoderarem do Mestre, sob o pretexto de que este perdera o espírito. Informado da chegada deles, conhecendo os sentimentos que nutriam a seu respeito, era natural que Jesus dissesse, referindo-se a seus discípulos, do ponto de vista espiritual: "Eis aqui meus verdadeiros irmãos." Embora na companhia daqueles estivesse sua mãe, ele generaliza o ensino que de maneira alguma implica haja pretendido declarar que sua mãe segundo o corpo nada lhe era como Espírito, que só indiferença lhe merecia. Provou suficientemente o contrário em várias outras circunstâncias.
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
A ingratidão dos filhos e os laços de família
9. A ingratidão é um dos
frutos mais diretos do egoísmo. Revolta sempre os corações honestos. Mas, a dos
filhos para com os pais apresenta caráter ainda mais odioso. E, em particular,
desse ponto de vista que a vamos considerar, para lhe analisar as causas e os
efeitos. Também nesse caso, como em todos os outros, o Espiritismo projeta luz
sobre um dos grandes problemas do coração humano.
Quando deixa a Terra, o Espírito leva consigo as paixões ou as virtudes
inerentes à sua natureza e se aperfeiçoa no espaço, ou permanece estacionário,
até que deseje receber a luz. Muitos, portanto, se vão cheios de ódios violentos
e de insaciados desejos de vingança; a alguns dentre eles, porém, mais
adiantados do que os outros, é dado entrevejam uma partícula da verdade;
apreciam então as funestas conseqüências de suas paixões e são induzidos a tomar
resoluções boas. Compreendem que, para chegarem a Deus, lima só é a senha:
caridade. Ora, não há caridade sem esquecimento dos ultrajes e das injúrias; não
há caridade sem perdão, nem com o coração tomado de ódio.
Então, mediante inaudito esforço, conseguem tais Espíritos observar os a quem
eles odiaram na Terra. Ao vê-los, porém, a animosidade se lhes desperta no
íntimo; revoltam-se à idéia de perdoar, e, ainda mais, à de abdicarem de si
mesmos, sobretudo à de amarem os que lhes destruíram, quiçá, os haveres, a
honra, a família. Entretanto, abalado fica o coração desses infelizes. Eles
hesitam, vacilam, agitados por sentimentos contrários. Se predomina a boa
resolução, oram a Deus, imploram aos bons Espíritos que lhes dêem forças, no
momento mais decisivo da prova.
Por fim, após anos de meditações e preces, o Espírito se aproveita de um corpo
em preparo na família daquele a quem detestou, e pede aos Espíritos incumbidos
de transmitir as ordens superiores permissão para ir preencher na Terra os
destinos daquele corpo que acaba de formar-se. Qual será o seu procedimento na
família escolhida? Dependerá da sua maior ou menor persistência nas boas
resoluções que tomou. O incessante contacto com seres a quem odiou constitui
prova terrível, sob a qual não raro sucumbe, se não tem ainda bastante forte a
vontade. Assim, conforme prevaleça ou não a resolução boa, ele será o amigo ou
inimigo daqueles entre os quais foi chamado a Viver. E como se explicam esses
ódios, essas repulsões instintivas que se notam da parte de certas crianças e
que parecem injustificáveis. Nada, com efeito, naquela existência há podido
provocar semelhante antipatia; para se lhe apreender a causa, necessário se
torna volver o olhar ao passado.
Ó espíritas! compreendei agora o grande papel da Humanidade; compreendei que,
quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir;
inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar de Deus
essa alma; tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se
fielmente a comprirdes. Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis
auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro. Lembrai-vos de que a
cada pai e a cada mãe perguntará Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa
guarda? Se por culpa Vossa ele se conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo
entre os Espíritos sofredores, quando de vós dependia que fosse ditoso. Então,
vós mesmos, assediados de remorsos, pedireis vos seja concedido reparar a vossa
falta; solicitareis, para vós e para ele, outra encarnação em que o cerqueis de
melhores cuidados e em que ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com o
seu amor.
Não escorraceis, pois, a criancinha que repele sua mãe, nem a que vos paga com a
ingratidão; não foi o acaso que a fez assim e que vo-la deu. Imperfeita intuição
do passado se revela, do qual podeis deduzir que um ou outro já odiou muito, ou
foi muito ofendido; que um ou outro veio para perdoar ou para expiar. Mães!
abraçai o filho que vos dá desgostos e dizei convosco mesmas: Um de nós dois é
culpado. Fazei-vos merecedoras dos gozos divinos que Deus conjugou à
maternidade, ensinando aos vossos filhos que eles estão na Terra para se
aperfeiçoar, amar e bendizer. Mas oh! muitas dentre vós, em vez de eliminar por
meio da educação os maus princípios inatos de existências anteriores, entretêm e
desenvolvem esses princípios, por uma culposa fraqueza, ou por descuido, e, mais
tarde, o vosso coração, ulcerado pela ingratidão dos vossos filhos, será para
vós, já nesta vida, um começo de expiação.
A tarefa não é tão difícil quanto vos possa parecer. Não exige o saber do mundo.
Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe facilita
o desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da alma humana.
Desde pequenina, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz da sua
existência anterior. A estudá-los devem os pais aplicar-se. Todos os males se
originam do egoísmo e do orgulho. Espreitem, pois, os pais os menores indícios
reveladores do gérmen de tais vícios e cuidem de combatê-los, sem esperar que
lancem raízes profundas. Façam como o bom jardineiro, que corta os rebentos
defeituosos à medida que os vê apontar na árvore. Se deixarem se desenvolvam o
egoísmo e o orgulho, não se espantem de serem mais tarde pagos com a ingratidão.
Quando os pais hão feito tudo o que devem pelo adiantamento moral de seus
filhos, se não alcançam êxito, não têm de que se inculpar a si mesmos e podem
conservar tranqüila a consciência. A amargura muito natural que então lhes advém
da improdutividade de seus esforços, Deus reserva grande e imensa consolação, na
certeza de que se trata apenas de um retardamento, que concedido lhes será
concluir noutra existência a obra agora começada e que um dia o filho ingrato os
recompensará com seu amor. (Cap. XIII, nº 19.)
Deus não dá prova superior às forças daquele que a pede; só permite as que podem
ser cumpridas. Se tal não sucede, não é que falte possibilidade: falta a
vontade. Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se
comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em existências
posteriores. Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao
arrependimento. Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho
afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe
lança aos pés. As provas rudes, ouvi-me bem, são quase sempre indício de um fim
de sofrimento e de um aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o
pensamento em Deus. E um momento supremo, no qual, sobretudo, cumpre ao Espírito
não falir murmurando, se não quiser perder o fruto de tais provas e ter de
recomeçar. Em vez de vos queixardes, agradecei a Deus o ensejo que vos
proporciona de vencerdes, a fim de vos deferir o prêmio da vitória. Então,
saindo do turbilhão do mundo terrestre, quando entrardes no mundo dos Espíritos,
sereis aí aclamados como o soldado que sai triunfante da refrega.
De todas as provas, as mais duras são as que afetam o coração. Um, que suporta
comcoragem a miséria e as privações materiais, sucumbe ao peso das amarguras
domésticas,pungido da ingratidão dos seus. Oh! que pungente angústia essa! Mas,
em tais circunstâncias,que mais pode, eficazmente, restabelecer a coragem moral,
do que o conhecimento das causas do mal e a certeza de que, se bem haja
prolongados despedaçamentos dalma, não há desesperos eternos, porque não é
possível seja da vontade de Deus que a sua criatura sofra indefinidamente? Que
de mais reconfortante, de mais animador do que a idéia que de cada um dos seus
esforços é que depende abreviar o sofrimento, mediante a destruição, em si, das
causas do mal? Para isso, porém, preciso se faz que o homem não retenha na Terra
o olhar e só veja uma existência; que se eleve, a pairar no infinito do passado
e do futuro. Então, a justiça infinita de Deus se vos patenteia, e esperais com
paciência, porque explicável se vos torna o que na Terra vos parecia verdadeiras
monstruosidades. As feridas que aí se vos abrem, passais a considerá-las simples
arranhaduras. Nesse golpe de vista lançado sobre o conjunto, os laços de família
se vos apresentam sob seu aspecto real. Já não vedes, a ligar-lhes os membros,
apenas os frágeis laços da matéria; vedes, sim, os laços duradouros do Espírito,
que se perpetuam e consolidam com o depurarem-se, em vez de se quebrarem por
efeito da reencarnação.
Formam famílias os Espíritos que a analogia dos gostos, a identidade do
progresso moral e a afeição induzem a reunir-se. Esses mesmos Espíritos, em suas
migrações terrenas, se buscam, para se gruparem, como o fazem no espaço,
originando-se daí as famílias unidas e homogêneas. Se, nas suas peregrinações,
acontece ficarem temporariamente separados, mais tarde tornam a encontrar-se,
venturosos pelos novos progressos que realizaram. Mas, como não lhes cumpre
trabalhar apenas para si, permite Deus que Espíritos menos adiantados encarnem
entre eles, a fim de receberem conselhos e bons exemplos, a bem de seu
progresso. Esses Espíritos se tornam, por vezes, causa de perturbação no meio
daqueles outros, o que constitui para estes a prova e a tarefa a desempenhar.
Acolhei-os, portanto, como irmãos; auxiliai-os, e depois, no mundo dos
Espíritos, a família se felicitará por haver salvo alguns náufragos que, a seu
turno, poderão salvar outros. - Santo Agostinho. (Paris, 1862.)
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